Música Nativista do Rio Grande do Sul: Uma Jornada pela Alma Gaúcha

Conheça a história, os festivais e os grandes nomes do movimento nativista gaúcho, uma das manifestações culturais mais autênticas do Rio Grande do Sul.

As Origens do Movimento Nativista Gaúcho

O movimento nativista gaúcho surgiu no início da década de 1970 como uma reação à massificação cultural e à crescente influência da música estrangeira no Brasil. Inspirado pelas pesquisas de folcloristas como Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, que nas décadas de 1940 e 1950 percorreram o estado registrando as manifestações musicais tradicionais, um grupo de jovens artistas e intelectuais de Santa Maria decidiu criar um espaço para a valorização da cultura sul-rio-grandense.

Esses pesquisadores pioneiros que antecederam o nativismo foram fundamentais para fornecer a base documental e o resgate de ritmos como a milonga, o vanerão e o xote, que se tornariam a espinha dorsal do novo movimento.

Nativismo vs. Tradicionalismo: Qual a Diferença?

Embora frequentemente confundidos, nativismo e tradicionalismo possuem origens e propósitos distintos. O tradicionalismo gaúcho, organizado em Centros de Tradições Gaúchas (CTGs), tem como foco a preservação dos usos e costumes do passado, recriando um ambiente histórico e cultural. O nativismo, por sua vez, é um movimento artístico-musical de criação autoral. Ele busca inspiração na cultura regional, mas a reinventa através de uma linguagem contemporânea, dialogando com a MPB e outros gêneros nacionais.

Se o tradicionalismo é a memória, o nativismo é a recriação poética dessa memória. Tudo isso se conecta com a visão geral da música regional gaúcha que o Projeto Gema documenta.

A Tertúlia Musical Nativista e a Era dos Festivais

O marco zero do movimento foi a criação da Tertúlia Musical Nativista, em 1971, na cidade de Santa Maria. Idealizada por Luiz Menezes, Apparício Silva Rillo e outros, a Tertúlia era um encontro de compositores e intérpretes que apresentavam canções inéditas com temática regional. O sucesso do evento foi imediato e inspirou a criação de dezenas de outros festivais por todo o estado, consolidando o nativismo como um dos maiores movimentos de música regional do Brasil.

O modelo do festival se espalhou rapidamente. Abaixo, uma lista dos principais festivais nativistas do Rio Grande do Sul:

  • Tertúlia Musical Nativista (Santa Maria) — O berço do movimento, ainda ativo.
  • Calhandra de Ouro (São Sepé) — Foco na poesia e na música de qualidade.
  • Saionara de Ouro (Cachoeira do Sul) — Tradicional concurso musical.
  • Gauderiada da Canção (Cacequi) — Um dos festivais mais antigos e respeitados.
  • Coxilha Nativista (Cruz Alta) — Grande encontro de músicos e compositores.
  • Seara da Canção Gaúcha (Estrela) — Festival que revela novos talentos.
  • Carijo da Canção Gaúcha (Palmeira das Missões) — Um dos maiores do estado.
  • Prenda da Canção Gaúcha (Santana do Livramento) — Festival exclusivamente feminino.
  • Rodeio da Canção Gaúcha (São Francisco de Paula) — Outro marco do calendário nativista.
  • Festival de Música Nativista de Caçapava do Sul — Importante evento da região sul.

Compositores e Vozes que Marcam Época

O nativismo revelou uma plêiade de compositores e intérpretes que se tornaram verdadeiros ícones da cultura gaúcha. Luiz Menezes, com sua gaita e sua voz inconfundível, é considerado o grande mestre do movimento. Apparício Silva Rillo, poeta e compositor, trouxe uma profundidade literária às letras nativistas. Jayme Caetano Braun, o payador, manteve viva a tradição do repentismo e da poesia improvisada.

Cenair Maicá, Telmo de Lima Freitas, Pedro Ortaça e José Holler são outros nomes fundamentais que ajudaram a construir o cancioneiro nativista.

Instrumentos e Sonoridade

Os instrumentos usados no nativismo como gaita e viola são a alma desse som. A gaita-ponto (acordeão diatônico) e a gaita de botão são quase unanimidades, ao lado da viola de dez cordas e do violão. Diferentemente do tradicionalismo, o nativismo sempre foi aberto a experimentações, incorporando violinos, acordeões cromáticos e até mesmo instrumentos elétricos quando a canção pedia.

A riqueza rítmica do estado vem da mistura de influências. A herança africana está presente no batuque e herança africana no sul, que influencia a percussão e a cadência de certas canções. A música indígena Guarani no RS é um capítulo à parte, com seus cantos rituais e instrumentos como o mbaraka, que também ecoam na paisagem sonora gaúcha.

Legado e Atualidade do Nativismo

Mais de cinquenta anos após seu nascimento, o movimento nativista gaúcho continua vibrante. Novos compositores e intérpretes surgem a cada festival, mantendo viva a chama da criação musical regional. O movimento se adaptou aos novos tempos, com a presença nas plataformas digitais e a gravação de novos discos, mas sem perder sua essência: a de cantar o Rio Grande do Sul com os pés no chão do campo e o olhar no futuro.

Projetos como o Projeto Gema são frutos diretos desse legado, realizando um levantamento inédito da diversidade musical do estado e reafirmando a importância do nativismo como patrimônio imaterial do Brasil.

Perguntas Frequentes sobre a Música Nativista

O que define a música nativista?

A música nativista é definida pela sua temática regionalista aliada a uma proposta de criação autoral. Ela busca inspiração na cultura, na paisagem e nos tipos humanos do Rio Grande do Sul, mas não se limita a reproduzir o passado, incorporando elementos contemporâneos.

Qual a diferença entre nativismo e tradicionalismo?

O tradicionalismo é um movimento de preservação cultural ligado aos CTGs, focado nos usos e costumes. O nativismo é um movimento artístico-musical de criação autoral. Enquanto o tradicionalismo recria o ambiente histórico, o nativismo reinventa a cultura regional em novas canções.

Quais os principais instrumentos da música nativista?

Os principais instrumentos são a gaita-ponto (acordeão diatônico), a gaita de botão, a viola de dez cordas e o violão. A percussão (bombo) e, em alguns casos, violinos e instrumentos elétricos também são utilizados.

Onde surgiu a primeira Tertúlia Nativista?

A primeira Tertúlia Musical Nativista surgiu em 1971, na cidade de Santa Maria (RS), idealizada por um grupo de artistas e intelectuais liderados por Luiz Menezes e Apparício Silva Rillo.


Explore mais sobre a música do Rio Grande do Sul: